CONHECER PARA RESPEITAR E MELHOR ENSINAR: A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE HISTÓRIA NO CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM CULTURAS E HISTÓRIA INDÍGENA
Introdução
O objetivo principal deste artigo é analisar os reflexos e os significados do curso de formação de professores Culturas e História dos Povos Indígenas, em nível de especialização, no âmbito da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), sobre as práticas pedagógicas dos professores da disciplina de História, que realizaram esta pós-graduação entre 2014 e 2015, pois entendemos que nessa disciplina a questão indígena tem um lócus privilegiado, conforme a Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008, que obriga o estudo da temática História e Cultura Afro-brasileira e Indígena nas escolas brasileiras (BRASIL, 2008).
Desde 2010 cursos de formação de professores, inicialmente na modalidade de extensão, voltados para a temática Culturas e História dos Povos Indígenas, têm sido realizados através da modalidade de Educação a Distância, na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Este fato foi possível graças à Rede de Educação Para a Diversidade (REDE), sendo no âmbito da UFMS as atividades coordenadas pelo professor Drº Antônio Hilário Urquiza (URQUIZA, 2013).
Conforme o Manual Operacional para a Rede de Educação para a Diversidade, o programa Rede de Educação para a Diversidade (REDE) foi criado pelo Ministério da Educação em conjunto com a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD), também em parceria com a Secretaria de Educação a Distância (SEED), para que estimulasse as instituições públicas de educação superior (IPES) a desenvolver ações para a formação de professores voltada para a diversidade, a fim de que os professores das escolas de educação básica, comecem a incluir nas suas práticas temas voltados para a diversidade. Além disso, a REDE tem como objetivo formar um grupo permanente de instituições de ensino superior voltadas para a formação continuada, semipresencial, dos professores das escolas públicas, além de subsidiar a produção de materiais didático-pedagógicos específicos. Os cursos são oferecidos no âmbito da Universidade Aberta do Brasil (AUB). Dentre as temáticas temos: Educação para a Diversidade, Educação de Jovens e Adultos na Diversidade, Educação do Campo, Educação para as Relações Étnico-Raciais, Educação Ambiental, Educação Integral e Integrada, Gênero e Diversidade na Escola, Saúde na Escola, Educação para os Direitos Humanos, Produção de Material Didático para a Diversidade, Educação Escolar, Culturas e História dos Povos Indígenas e Mediadores de Leitura (BRASIL, 2010).
No ano de 2014, iniciou-se a primeira turma do curso de Formação de professores em Culturas e História dos Povos Indígenas, oferecido em nível de especialização na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Este artigo parte do pressuposto de que ele foi de suma importância para subsidiar a abordagem da temática indígena na escola, em consonância com a Lei nº 11.645/2008, que tornou obrigatória a inserção da cultura e história indígena no currículo escolar. Trata-se de um grande desafio para os docentes, mas também de uma grande necessidade, pois é necessário urgentemente reconhecer que as culturas indígenas deixaram importantes legados para o povo brasileiro e continuam contribuindo atualmente com o desenvolvimento do país.
Por uma educação multicultural
A temática indígena tem sido pouco abordada na escola, o que contribui para fortalecer o preconceito dos não índios em relação aos povos nativos e com os inúmeros equívocos presentes na mentalidade do povo brasileiro a respeito das populações indígenas, os quais são reproduzidos pela mídia e pelos livros didáticos. Neste sentido, “compreender a importância e a urgência de se ensinar a história e a cultura afro-brasileira e indígena, sem promover a hierarquização dos saberes, é o desafio que ainda precisa ser enfrentado, na perspectiva de se descolonizar o currículo” (MARQUES, 2014, p. 560).
Embora existam diferentes vertentes, em síntese, o multiculturalismo é um movimento teórico que se iniciou no século XX – surgiu atrelado às lutas de grupos oprimidos, especialmente os negros - nos Estados Unidos e se espalhou pelo mundo ocidental, com objetivo de combater discriminações e preconceitos enfrentados por minorias. O multiculturalismo é contrário a qualquer visão etnocêntrica, ou seja, aquela que considera a cultura do próprio grupo como a melhor e superior à cultura do outro. Do ponto de vista do multiculturalismo, uma sociedade deve ser pautada na pluralidade cultural e no respeito às diferenças. Por isso, defendemos que devemos levar o multiculturalismo para dentro da escola a fim de lutarmos contra o preconceito e estereótipos impostos pelos grupos dominantes no espaço escolar (SILVA; BRANDIM, 2008).
No Brasil, o multiculturalismo influenciou a elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997), incluindo a “Pluralidade Cultural” como tema transversal, pautando-se na ideia de que a educação para a cidadania deve voltar-se para o respeito à diversidade. Nota-se que com os PCN há a defesa de uma educação contra a homogeneização cultural. Não basta defender a ideia de que o Brasil foi formado originalmente por três raças – o branco, o índio e o negro – que se misturaram e deram origem a um povo miscigenado, mas sim considerar que há diferenças, respeitá-las e valorizá-las na escola. No que diz respeito à temática indígena:
“Assim sendo, tratar da presença do índio pela inclusão nos currículos de conteúdos que informem sobre a riqueza de suas culturas e a influência delas sobre a sociedade, conforme disposto na Constituição de 1988 (art. 210, parágrafo 2º), é valorizar essa presença e reafirmar os direitos dos índios como povos nativos, de forma que corrija uma visão deturpada que os homogeneiza como se fossem de um único grupo, devido à justaposição aleatória de traços retirados de diversas etnias” (BRASIL, 1997, p. 130).
Nesse viés, nós professores temos um papel importantíssimo porque podemos desenvolver estratégias para descolonizar o currículo escolar, que ainda possui um caráter eurocêntrico, por meio do processo de ensino e aprendizagem, a fim de desconstruir preconceitos sobre os indígenas e outras minorias e recuperar seu legado cultural para o povo brasileiro, tendo em vista que: “Para acabar com o preconceito e desconstruir os estereótipos com relação às sociedades indígenas, é preciso começar estudando sobre essas sociedades indígenas, a cultura, as tradições, a história passada e a história atual, as misturas étnicas e outras relações” (SOUZA, 2013, p. 314).
Ressaltamos que há equívocos recorrentes a respeito das populações indígenas, tratadas de modo estereotipado, na educação, muito reproduzidos por livros didáticos e professores nas salas de aula pelo Brasil afora, a saber: 1- Índio é visto como genérico, isto é, como se todos eles tivessem uma mesma cultura, com mesmas crenças, línguas e modos de vida, assim apagando suas diferenças culturais; 2- O índio é tido como atrasado, seus conhecimentos são desprezados, porque são considerados ignorantes; 3- As culturas indígenas são vistas como congeladas, isto é, muitos consideram índios apenas aqueles que vivem na floresta em suas aldeias, usam tanguinha e caçam com arco e flecha, conforme descrito por Pero Vaz de Caminha há mais de 500 anos; 4 – Os índios pertencem ao passado e não fazem parte do presente nem do futuro do Brasil e, 5 – O brasileiro não é índio, isto é, não considera o indígena como elemento formador da sua identidade, ou seja, a cultura do povo brasileiro não deriva do indígena, mas sim do branco, do homem europeu, especialmente os portugueses (FREIRE, 2000).
Um ponto preocupante é que poucas pessoas ainda hoje sequer têm consciência de como os indígenas foram mal compreendidos culturalmente e desmerecidos ao longo de toda a nossa história, apesar de suas grandes contribuições culturais para a sociedade brasileira. Por exemplo, quando levamos em conta que as principais plantas que usamos hoje como alimento em nossas casas e nas nossas indústrias foram descobertas pelos indígenas, tais como: batata, mandioca, milho, batata doce, feijões, amendoim, cacau, abacaxi, caju, mamão, entre outros, passamos a valorizar o conhecimento dos nativos. Para se ter uma ideia, no que se refere às árvores frutíferas, a contribuição é ainda maior. As mais conhecidas são: guavira, maracujá, umbu, mangaba, maçaranduba, jabuticaba, pequi, bacuri, cupuaçu, guaraná, goiaba, jenipapo, jurubeba, jambo, fruta-do-conde, jatobá, ingá, só para citar alguns dos inúmeros outros frutos, sem falar que há várias frutas consumidas pelos índios, mas ainda desconhecidas dos não índios. Quanto à indústria, a contribuição dos saberes indígenas não é menor: a árvore da borracha, por exemplo, já era conhecida pelos índios muito antes de ser usada na indústria automobilística do século XIX.
Eles a utilizavam para confeccionar bolas, seringas e impermeabilizar objetos. Por sua vez, a indústria farmacêutica produz uma gama de remédios que têm como base as plantas medicinais utilizadas pelos indígenas, mas as pessoas que os utilizam ignoram totalmente este fato (RIBEIRO, 1995).
Nestas terras brasileiras em 1500 havia aproximadamente 5 milhões de indígenas, sendo que hoje restam apenas, é de 896, 9 mil, segundo o Censo do IBGE de 2010. Este verdadeiro massacre faz parte da nossa história e, é um passado que precisa ser problematizado nas salas de aula; em vez de ignorado, necessita ser resgatado com urgência.
A formação continuada, a diversidade cultural e a EAD
O curso de Formação de Professores – nível de especialização - em Culturas e História dos Povos Indígenas, especialmente voltando-se para os professores do Ensino Básico, é aqui entendido como espaço de formação continuada. Trata-se de uma formação continuada com foco na diversidade cultural e, consequentemente os professores que dela participaram, passaram a questionar e a refletir sobre conceitos estereotipados, preconceitos e silêncios presentes no currículo de suas disciplinas e, até mesmo em sua própria prática pedagógica. Neste sentido, cabe ao professor a compreensão de que não existem identidades culturais estanques, isto é, puras, mas sim híbridas. Porque toda identidade também é resultado de trocas culturais, as quais são constantes, pois de fato “as nações modernas, são todas, híbridos culturais” (HALL, 1997, p.62). Porém
“(...) não importa o quão diferentes seus membros possam ser em termos de classe, gênero ou raça, uma cultura nacional busca unificá-los numa identidade cultural, para representá-los todos como pertencendo a mesma e grande família nacional. Mas seria identidade nacional uma identidade unificadora desse tipo, uma identidade que anula e subordina a diferença cultural?” (HALL, 1997, p. 59)
Ao homogeneizar a cultura de um povo desprezam-se as suas diferenças culturais, apagando os conflitos existentes e subordinando as minorias aos interesses dos colonizadores. Contudo, uma visão a partir do multiculturalismo pós-colonial, nos proporciona uma educação mais crítica, um questionamento maior sobre os conteúdos a serem ensinados, principalmente quando desmerece o índio, o negro, a mulher, o imigrante e, assim passamos a lutar contra o preconceito enfrentado por estas populações, valorizando suas diferenças e respectivas contribuições culturais para o povo brasileiro. Dessa maneira,
“Dentro dessa abordagem, a formação continuada de professores possui um papel relevante, uma vez que preparar professores para refletirem e trabalharem com a diversidade cultural no contexto escolar significa abrir espaços que permitam a transformação da escola em um local em que as diferentes identidades são respeitadas e valorizadas, consideradas fatores enriquecedores da cidadania” (CANEM; XAVIER, 2011, p. 13).
As Universidades têm um importante papel na formação continuada dos professores. Atualmente, a Educação a Distância tem maximizado o alcance dos cursos oferecidos por elas. Além disso, a EAD possui um aspecto muito interessante: a capacidade de democratizar a oferta de cursos de graduação, pós-graduação e formação continuada.
Segundo Moran (2002), o processo de educação à distância (EAD) caracteriza-se por ser uma modalidade de ensino-aprendizagem na qual os professores e alunos estão separados fisicamente, isto é, não estão no mesmo espaço físico, contudo permanecem em constante interação, graças aos meios de comunicação. Portanto, diferente do ensino tradicional, na EAD professor e aluno não ocupam a mesma sala de aula, mas estão conectados através das tecnologias.
A pesquisa desenvolvida
Esta pesquisa foi desenvolvida numa abordagem qualitativa de natureza descritivo-explicativa, buscando identificar, descrever e analisar as concepções dos professores de História da Educação Básica sobre sua participação no Curso de Formação de Professores em Cultura e História dos Povos Indígenas, em nível de especialização. Buscando compreender as seguintes questões: qual o impacto dessa formação na prática dos docentes?
Passaram a utilizar os conhecimentos adquiridos no curso utilizando-os na sala de aula e como?
A fim de responder estes e outros questionamentos foram realizadas 5 entrevistas com os docentes de História, concluintes do Curso de Especialização em Culturas e História Indígena (2014-2015), os depoimentos foram colhidos durante o primeiro semestre do ano de 2015. As entrevistas foram direcionadas por um questionário semiestruturado.
Os dados analisados foram os discursos/descrições sobre a abordagem da temática indígena no ensino-aprendizagem de História, sendo importante frisar que a descrição, neste sentido, diz respeito às situações vividas, isto é, reais, assim “no que se refere à pesquisa qualitativa, pode-se dizer que os dados são coletados através da descrição feita por sujeitos [...]” (MARTINS, 2010, pp. 63).
Resultados
As iniciativas do Programa Rede de Educação para a Diversidade mostraram-se indispensáveis ao capacitar os professores do Ensino Básico, capacitando-os a abordar a diversidade cultural na escola, por meio do fomento de cursos de formação de professores, tal como a Especialização em História e Culturas dos Povos Indígenas, oferecida em vários estados do Brasil por Universidades Federais.
Os cursos ofertados pela REDE em parceria com Universidade Aberta do Brasil, ao fazer uso da modalidade da Educação à Distância conseguiram um alcance maior do que se fossem presenciais sem perder de vista a qualidade, conforme as vozes dos entrevistados, permitindo que professores de diferentes municípios de Mato Grosso do Sul, sem a necessidade de estar em um mesmo espaço físico, trocassem experiências e compartilhassem reflexões nos fóruns e nos encontros presenciais.
Pode-se afirmar, com base nos depoimentos dos professores de História, que o curso de Especialização Culturas e História dos Povos Indígenas engendrou um redirecionamento da prática pedagógica dos docentes, pois aquilo que era visto como obstáculo, especialmente a falta de conhecimentos sobre os indígenas, não foi mais encarado desta forma, mas sim como algo transponível. Além do mais, os professores destacaram que foram estimulados por meio das leituras e discussões a abordarem a cultura indígena na sala de aula e, que passaram a ter mais conhecimentos sobre o assunto, se sentindo mais seguros para trabalhar o tema nas aulas e promovendo um enfoque crítico ao invés de folclorizar o índio, repercutindo na desconstrução de preconceitos e equívocos sobre as populações indígenas no ambiente escolar.
Todos os entrevistados demonstraram satisfação com o curso de Especialização, destacaram principalmente o fato de terem adquirido bastante conhecimento, um grande número de informações e textos e, a existência de professores capacitados, proporcionando-lhes um embasamento teórico que ajudará na abordagem da temática indígena na escola. Destaco, a título de exemplo, a resposta do entrevistado 3, o qual afirmou estar satisfeito “(...) especialmente em relação a alguns conceitos dos estudos culturais pós-colonialistas, sobretudo como multiculturalismo e interculturalíssimo, além de entender a gama de culturas indígenas existentes ainda hoje no Brasil. ”
Após o que foi apresentado, defende-se que o curso de formação de professores em Culturas e História dos Povos Indígenas, em nível de especialização, cumpriu sua função ao trazer novos conhecimentos para os docentes da Educação Básica sobre a questão indígena contribuindo com uma prática pedagógica mais crítica no que diz respeito a temática indígena na escola, no aprendizado de novos conceitos, no incentivo ao debate da questão indígena dentro do espaço escolar e em uma abordagem multicultural dos conteúdos a serem trabalhados pelos docentes.
O curso despertou ainda uma preocupação muito forte por parte dos professores com a maneira com que os livros didáticos de História representam os indígenas, pois conforme apontaram três dos entrevistados a temática escolhida para desenvolvimento do artigo final, requisito para concluir o curso de especialização aqui analisado, foi a respeito de como o indígena é representado nos livros didáticos de História utilizados por estes professores.
Referências biográficas
Willyan da Silva Caetano. Licenciado em História pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Possui especialização em Culturas e História dos Povos Indígenas pela mesma instituição e também em Educação Especial pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). É mestre em Educação Profissional e Tecnológica pelo Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), desenvolve pesquisas sobre o Ensino de História. Trabalha como professor efetivo na Educação Básica na SED-MS e na SEMED, de Campo Grande - MS, com experiência lecionando História no Ensino Fundamental e Médio.
Referências bibliográficas
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